A Honda sempre revelou uma solidez, uma resiliência e uma prudência absoluta nas suas decisões. E durante 70 anos sobreviveu a crises petrolíferas, crises financeiras e pandemias, sempre com resultados positivos. Por essa razão, a notícia de que a Honda perdeu dinheiro pela primeira vez em 70 anos é histórica! Razões para esta situação? Várias, mas entre elas está o erro na estratégia elétrica que, pela primeira vez, levou a casa japonesa por um caminho menos prudente.
Com efeito, esta é a primeira vez desde que a Honda está cotada no índice Nikkei da Bolsa de Valores de Tóquio (desde 1957) que apresenta resultados negativos. Algo histórico e que abalou o mercado financeiro japonês e os acionistas da Honda. Como foi possível chegar aqui?

Honda perdeu dinheiro… e não foi pouco!
De acordo com os relatórios do ano fiscal (março de 2025 a março de 2026), a Honda registou um prejuízo operacional de 2,2 mil milhões de euros (414 mil milhões de ienes), com o prejuízo líquido a ser um pouco maior. Uma situação sem precedentes nos últimos 70 anos!

O grupo japonês, com o fim de elucidar acionistas e os consumidores, reconhece as perdas, devido, principalmente, à estratégia da mobilidade elétrica. Com efeito, a Honda reconhece mais de 8,5 mil milhões de euros perdidos devido a essa situação. Os fortíssimos investimentos e reorganização do grupo para responder à estratégia elétrica inicial levaram a esta situação. E a Honda já veio a terreiro avisar que o ano fiscal 2026/2027 será impactado e serão experimentadas novas perdas. Em outras palavras, a Honda perdeu dinheiro… e pode perder mais.

Estratégia elétrica (e não só…) foi um desastre para a Honda
Assim como a Honda, outros construtores históricos não souberam lidar com a nova realidade. No caso do grupo japonês, decidiram sair da sua zona de conforto e arriscaram numa estratégia ousada. Que incluía passar a vender somente carros elétricos e hidrogénio a partir de 2040.
O tiro saiu pela culatra e acabou por fazer muitos danos na saúde financeira da Honda. Toshihiuro Mibe, o CEO do grupo Honda ficará ligado a este momento histórico para a casa de Minato, Tóquio. O acordo que não vingou com a Nissan também não ajudou a melhorar o cenário.

Outras razões para esta hemorragia financeira
Desde que a Honda insistiu na estratégia elétrica, outros problemas começaram a surgir. Desde logo a intervenção de Donald Trump com a imposição de tarifas aos produtos vindos do Japão e a supressão de incentivos à compra de veículos elétricos. Um duplo impacto que desestabilizou de forma evidente a estrutura financeira da Honda.

Por outro lado, a Honda decidiu anular vários projetos de novos modelos, três deles já bem avançados e destinados ao mercado dos Estados Unidos. Do mesmo modo, decidiu suspender por tempo indeterminado o gigantesco complexo fabril dedicado à mobilidade elétrica no Canadá.
Com capacidade para produzir 240 000 unidades/ano, tem investimento canadiano a rondar os 15 mil milhões de dólares. Seria um projeto que integraria toda a cadeia de valor dos modelos 100% elétricos.

Gama elétrica cancelada
A princípio, a Honda também desistiu da Série 0, uma gama de produtos desenvolvidos em parceria com a Sony. E também o Acura RSX e o Sony Afeela foram cancelados.

Um panorama assustador quando pensamos que há dois anos a Honda estava a caminho de ser um dos principais protagonistas da mobilidade elétrica em todo o lado.

Chineses também entram no rol dos culpados
À imagem de outros construtores japoneses, a Honda está a passar um mau bocado na China. Se em 2020 alcançou o pico de vendas com 1,65 milhões de unidades, em 2025 não conseguiu melhor que vender cerca de 645 mil unidades.

Então, o que vai fazer a Honda?
Em primeiro lugar teve de se reposicionar com custos elevadíssimos, passando a dar prioridade total aos híbridos. Para isso, estão previstos 15 novos modelos até 2019, todos eles híbridos. Em segundo lugar, a Honda que propor automóveis que sejam menos onerosos na produção, mais rentáveis e aceites pelos consumidores. Finalmente, a marca japonesa promete lançar uma nova geração de sistemas híbridos que reduzem os consumos em 10% e reduzem os custos industriais em cerca de 30%.

Enfim, a Honda está a seguir o caminho de marcas como a Toyota ou a Hyundai, desacelerando a transição para a mobilidade 100% elétrica. Tudo para estancar a hemorragia financeira.
Europeus também sofrem com ziguezagues da Honda
Com recuos de 20% nas vendas entre 2020 e 2025, a reorientação da Honda tem uma vítima: o mercado europeu. A aposta cega dos europeus na mobilidade elétrica não rima com as necessidades e a orientação da Honda. Por isso a casa japonesa vai focar-se no mercado norte-americano, no mercado japonês e na Índia, passando o mercado europeu a ser secundário.



