Não foi emigrante, mas os pais emigrados em França levaram-no a viajar amiúdes vezes até à Gália e à cidade das luzes, Paris. O ”mundo” que ganhou levou-o a convencer o pai a deixá-lo fazer um restaurante “no fim do mundo” e, a caminho dos 40 anos de vida, o Restaurante A Cerca é marcante em Figueira de Castelo Rodrigo, mas já extravasou os diques da interioridade e é referência em Portugal e Espanha. Fomos conhecê-lo ao volante de um carro… francês nascido em Dieppe… o Alpine A290.

Após cumprir a viagem até Figueira de Castelo Rodrigo ao volante do Alpine A290 e começar a falar com Jorge Quadrado, ecoaram na mente as palavras cantadas por Tony Carreira na canção “Sonhos de Menino”. Lembro-me de uma aldeia perdida na Beira dizia o cantor e Jorge Quadrado nasceu nessa aldeia, na época, pequena e perdida. “Os meus pais foram para França era eu um menino e ao contrário do que sucede ainda hoje, era eu que ia ter com os meus pais no Natal, na Páscoa e nas férias de verão.”

“Restaurante A Cerca” é um caso de paixão
Foi assim que Jorge Quadrado foi bebendo a cultura francesa. “Via restaurantes muito bonitos, bares, cafés que sempre me inspiraram.” Ora, a decisão de ter um restaurante na sua terra natal foi crescendo. Diz a canção “sonhava ser cantor de cantigas de amor”, Jorge Quadrado queria ter um restaurante.
“Sai da tropa e graças aos recursos dos meus pais, fui em frente e construi este espaço onde estamos hoje. Muito diferente, mas foi aqui que tudo nasceu há 39 anos.”

Como nasceu o nome “Restaurante A Cerca”?
A história conta-se de forma célere: impedido por lei de comprar o terreno onde hoje está o restaurante, o pai deu-lhe o dinheiro e foi Jorge Quadrado quem adquiriu o terreno e meteu mãos à massa para construir o Restaurante A Cerca.
E como chegou a este nome? “Simples” confessa Jorge Quadrado. “Havia aqui uma cerca a delimitar o bairro que estava a ser construído. Hoje estamos no meio da vila, mas há 39 anos estávamos na periferia. Havia a cerca e nem perdemos muito tempo… ficou A Cerca!”

Ponta de lança? A esposa e cozinheira!
Entretanto fomos encontrando espaço para a degustação que estava a ser preparada na cozinha onde está “o nosso ponta de lança!” Ponta de lança? “Sim, a minha esposa está lá dentro com um chef, mas é ela que comanda as operações. Por vezes dou as minhas opiniões e dou largas à imaginação, mas quem manda lá é ela!”

Alpine A290: desportivo elétrico
Tempo para olhar para o Alpine A290, o automóvel 100% elétrico que nos trouxe até Figueira de Castelo Rodrigo. Tendo por base o Renault 5, é a versão (mais) desportiva do primeiro automóvel 100% elétrico da Alpine. Tal como a Cerca, a inspiração francesa é total e a sua herança vem do século passado quando um homem arriscou fazer modelos desportivos com mecânicas simples. Tal como Jorge Quadrado, Jean Redélé ousou e foi bem-sucedido permanecendo a sua herança neste A290. Um desportivo elétrico capaz de andar mais de 300 km sem recarregar, oferecendo-nos um prazer inesquecível ao seu volante.

Decoração com cambiantes regulares
A visita guiada ao espaço do restaurante foi uma oportunidade para Jorge Quadrado nos explicar que “o espaço já mudou muito! Tenho esta necessidade criativa de oferecer sempre o melhor aos nossos clientes. No início diziam que era louco por fazer um restaurante aqui, na minha terra. Provou-se que não estava doido! O Restaurante A Cerca foi dos primeiros a ter pedra na parede, relva artificial, enfim decorações que saíram da minha imaginação, educada, claro, por tudo aquilo que vi lá fora, nomeadamente, em França.”

“Não partilho a ideia dos ‘coitadinhos’!”
O verdadeiro banquete que estava a caminho da mesa ainda deu tempo para questionar Jorge Quadrado sobre as dificuldades de estar no Interior de Portugal. “Olhe, eu não partilho da ideia dos ‘coitadinhos’. Sim, estamos no interior e precisávamos de algumas obras que nos deixassem mais centrais. Mas não me queixo… os espanhóis vêm de propósito até ao nosso restaurante e temos clientes de todo o lado país.”
Não quer isto dizer que tudo foram rosas. “Sempre tivemos altos e baixos, mas sempre superámos os piores momentos. Mesmo na pandemia? “Olhe, arregaçamos as mangas e começamos a fazer aquilo que nunca pensámos… ‘take away’, vendendo comigo ao postigo (risos). E conseguimos manter o barco à superfície.” Curiosamente, depois da pandemia, fechou o restaurante.
“É verdade! Entendemos que tínhamos de fazer uma renovação mais profunda, acabar com o café que tínhamos à entrada – o futebol ditava demasiados gritos e algumas confusões – e sermos mais restaurante. Ou seja, o espaço ficar reservado para refeições. Foi uma grande aposta e um esforço financeiro, mas que compensou, pois evoluímos durante o período de pandemia e depois das obras que fizemos saímos reforçados.”

Comida de lamber os dedos exige visitas regulares
Chegado o momento, degustámos uma farinheira feita de maneira surpreendente. “Foi uma ideia minha” contou-nos Jorge Quadrado. “Chama-se Farinheira Beirã. A ideia foi dar mais nobreza à farinheira que, de outra forma, não seria aceite por muitos.” Parece uma francesinha com queijo e ovo, mas o molho é uma delícia e a mistura dos diversos ingredientes explode na boca.

Seguiram-se uns cogumelos salteados com cama de legumes que voltou a surpreender as nossas papilas gustativas com um sabor absolutamente delicioso. “Fazem parte da nossa lista de entrada que fazemos questão de oferecer aos nossos clientes.” Dessa lista fazem parte Alheira na Brasa, Morcela à Abelha, um Revuelto de Alheira ou ainda Vinagrete de Tentáculo de Polvo e Tiras de Choco Frito.

Jorge Quadrado “ameaçou” com mais algumas entradas e perante o nosso protesto formos presenteados com um naco de vitela braseado delicioso, com a temperatura absolutamente correta e acompanhado por umas batatas fritas onduladas… feitas na cozinha da Cerca!

Ementa para todos os gostos e… bolsos
A comedida ementa oferece, ainda, um Bacalhau à S.Jorge, Picanha Argentina, Alheira à Cerca e mais uma mão cheia de pratos que servem todos os gostos. E porque é preciso servir a comunidade, A Cerca oferece um Menu diário.

“Não nos podemos esquecer de quem aqui trabalha e de quem necessita de se alimentar todos os dias. Por isso temos sempre dois pratos (carne e peixe) servidos com doses generosas” diz-nos Jorge Quadrado. Podemos garantir que tanto o Arroz de Marisco como a Carne de Porco à alentejana nos deixaram de água na boca e merecem bem a pena.

Futuro do Restaurante A Cerca? A família!
Antes de pegar no Alpine A292 e desfrutar dos 220 cv do motor elétrico, questionámos Jorge Quadrado sobre o futuro. “O futuro parece-me risonho com o meu genro e o meu filho a terem a vontade de continuar o meu legado.” Depois de ver a azáfama que Jorge coloca no atendimento aos clientes, sempre com um sorriso e uma brincadeira tirada do bolso, não resistimos a uma provocação. Perguntámos se estaria na hora de se afastar.

“Não! Tenho 62 anos e já tive um enfarte, mas adoro o que faço e este é o meu menino, foi eu que o criei e o ‘engordei’. Mas a verdade é que tenho a certeza de que o Restaurante A Cerca vai continuar com a qualidade de sempre, pois apesar de não terem a intensidade e a paixão que eu tenho, sinto que estão comprometidos e com desejo de avançar.”

Portanto o futuro está assegurado. “Está e para os ajudar, vamos fazer aqui mais uma remodelação, desta feita na cozinha, melhorando o equipamento para que a qualidade seja sempre superior!”
Estava na hora de dar largas ao Alpine nas maravilhosas estradas à saída de Figueira de Castelo Rodrigo, sempre pelo caminho mais longo… Ah! e aqui fica o desafio: visite a raia beirã e vá até ao Restaurante A Cerca. Não vai se arrepender!



