Dieselgate. O passado atormenta o futuro da Volkswagen

A Volkswagen tem apostado tudo na defesa do ambiente com os seus veículos elétricos, mas não será a curto prazo um tiro no pé?

Lembram-se de 2015? Foi o ano do ataque aos escritórios do Charlie Hebdo. Jeremy Clarksson decidiu dar largas ao seu mau feitio e esmurrou um produtor sendo despedido do Top Gear. Foi o ano em que 400 líbios morreram afogados a fugir do regime e a FIFA prescindiu de Sepp Blatter devido atos de corrupção banindo-o a ele e a Michel Platini do futebol durante seis anos. Foi o ano em que a invenção de Mark Zuckerberg passou o milhar de milhão de utilizadores.

Mas 2015 ficará marcado como o ano do maior escândalo da indústria automóvel, espoletado por uns cientistas americanos. Que depois de uma zanga pelo poder no grupo VW entre Ferdinand Piech e Martin Winterkorn, descobriram que a Volkswagen usava software malicioso para enganar os testes de homologação da NHTSA nos EUA.

O pontapé na porta da ilegalidade foi dado com a recolha de 482 mil carros a gasóleo nos EUA. Tal originou custos até agora medidos em mais de 30 mil milhões de euros.

Volkswagen Dieselgate 1

Mas o Dieselgate fez muito mais estragos! Foi o escândalo que colocou a invenção de Rudolph Diesel nas bocas do mundo. Permitiu também que os populistas se esgueirassem e fizessem campanha contra os motores Diesel. Foi o Dieselgate que trouxe para cima da mesa a necessidade de mudar para algo menos poluente e colocou os holofotes nos híbridos e nos modelos 100% elétricos.

Decididos a atirar para debaixo do tapete o Dieselgate, os responsáveis do grupo Volkswagen passaram a ser os “campeões da defesa do ambiente e dos veículos elétricos”. Uma jogada de marketing onerosa onde a rapidez de ação era essencial, sem olhar a custos.

Volkswagen Dieselgate 2

Seis anos depois…

Volvidos seis anos e mais de 30 mil milhões de euros consumidos na fogueira dos processos e das indeminizações e outros tantos na mobilidade 100% elétrica, os estilhaços continuam a voar e a acertar em cheio na indústria automóvel – vejam-se os exemplos dos processos colocados em Portugal à Fiat, Alfa Romeo e Jeep – e na Volkswagen.

O mais recente estilhaço que ameaça ajoelhar o grupo Volkswagen tem como acelerador a União Europeia. Fruto de muita pressão das associações de consumidores germânicos, respaldadas pelo Governo Federal, a Volkswagen já tinha aceite indemnizar os clientes alemães. Mas deixou claro que não estava disponível para o fazer a clientes fora do território germânico, depois de ter gasto horrores de dinheiro nos EUA. Ora, a Comissão Europeia tem estado a pressionar a Volkswagen para mudar de atitude, tendo encontrado sempre a mesma resposta: não!

Pressionada por várias associações de consumidores de países do Velho Continente agregado na União Europeia, a Comissão decidiu que era hora de colocar a boca no trombone e ameaçar publicamente o grupo Volkswagen. Quem o fez foi o Comissário Europeu da Justiça, e membro do Movimento Reformador, Didier Reynders.

Há inúmera prova documental e sustentada em tribunal que indica ter a Volkswagen tratado os consumidores de forma injusta.

Didier Reynders

Mas foi mais longe o belga de 63 anos. “O construtor não está na disposição de trabalhar com os grupos de defesa do consumidor para encontrar soluções de compensações justas. E não estamos a falar de consumidores alemães ou residentes na Alemanha, mas de todos os clientes que precisam de ser compensados!

Volkswagen inexorável!

Portanto, está lançado o desafio! “A posição da companhia não mudou apesar das pressões da União Europeia e de várias decisões contrárias em vários tribunais, pelo que vamos unir esforços para aumentar a pressão.

A leitura é simples. A União Europeia quer que a Volkswagen indemnize todos os clientes europeus que tenham sido prejudicados pelo software malicioso instalado nos motores Diesel de vários modelos do grupo. Independentemente de terem sido ou não reparados.

Veremos qual a pressão que a União Europeia e a Comissão Europeia irá fazer sobre o grupo Volkswagen. É mais uma dor de cabeça para a equipa legal e para o CEO do grupo alemão. Como se já não bastasse a Herbert Diess ter de lidar com os custos pornográficos da mobilidade elétrica, a crise dos semicondutores e o facto das vendas dos modelos 100% elétricos ameaçarem criar stocks quase impossíveis de gerir e com custos astronómicos.

A União Europeia quer forçar o fim dos motores de combustão interna em 2035 e a Volkswagen alimentou essa fogueira. Esta colocou a indústria automóvel e os seus fornecedores em lume intenso com o lançamento da gama ID na VW, a e-tron na Audi e o Taycan na Porsche.

Mas a evidência diz que esta aceleração ditada pelo instinto de sobrevivência dos políticos é um pequeno suicídio e começam a surgir os primeiros obstáculos à ideia da Comissão Europeia. O Governo da República Checa está, formalmente, contra essa ideia. As negociações no seio dos 27 serão duríssimas e depois desta pressão sobre o grupo Volkswagen e com a mudança de mãos do poder na Alemanha, pode a Comissão Europeia ter encontrado um forte opositor.

É verdade que o Grupo Volkswagen é um campeão da mobilidade elétrica, mas as suas vendas superiores a 8 milhões de unidades são asseguradas em esmagadora parte pelos motores de combustão interna. E acabar em 2035 com estes propulsores será mais uma enorme despesa para o grupo VW e para todos os construtores.

Por isso, cito Mark Twain já que os motores inventados por Nicolaus Otto… “as noticias sobre a minha morte são manifestamente exageradas!”

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