Actividades

Evento

2º Passeio TT dos Juízes Portugueses
3, 4 e 5 de Outubro
Tipo de Evento: Passeio Todo-o-Terreno Turístico
Localidade: Trancoso - Foz Côa - Sernancelhe
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Em colaboração com a Associação Nacional de Juízes, o Clube Escape Livre organizou o 2º TT dos Juízes Portugueses. De dois em dois anos magistrados de todo o País regressam à região da Guarda para viverem momentos de descoberta e lazer e praticarem todo terreno com o intuito de melhor conhecerem o património cultural e histórico compreendido entre a Serra da Estrela e o Douro.
Nesta edição o centro das operações foi o Hotel Turismo em Trancoso e o trajecto todo terreno foi desde a terra de Bandarra até Sernancelhe passando por Vila Nova de Foz Côa. O centro histórico de Trancoso, as gravuras paleolíticas do Parque Arqueológico do Vale do Côa, a Quinta da Erva Moira e o Santuário de N. S. da Lapa foram alguns dos locais visitados ao longo de um fim-de-semana que, como habitualmente, teve muita animação e convívio salutar.
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AO ENCONTRO DO PATRIMÓNIO


Descobrir e visitar um diversificado património histórico, cultural, paisagístico e gastronómico dos concelhos de Trancoso, Foz Côa e Sernancelhe através de um passeio todo terreno organizado pelo Clube Escape Livre reuniu em interessante e descontraído convívio magistrados judiciais de todo o País.

Com o “Tribunal” instalado no Hotel Turismo em Trancoso as “audiências” deste passeio TT dos Juízes Portugueses prolongaram-se de 6.ª Feira ao fim da tarde até Domingo com a necessidade de inúmeras “deslocações aos locais” de forma a avaliar correctamente os “factos” que ditaram esta reunião de 70 magistrados conduzindo 19 viaturas 4x4 em terras do interior.

Assim e para fazer “justiça” ao património, em Trancoso já ao pôr-do-sol teve lugar uma visita guiada ao centro histórico permitindo aos que chegaram mais cedo conhecer melhor a terra onde o Rei D. Dinis desposou a Rainha D. Isabel. Depois, uma sessão de esclarecimento sobre o Parque Arqueológico do Vale do Côa pela técnica Aldina Regalo saciou alguma curiosidade sobre as gravuras paleolíticas.

No Sábado o percurso todo terreno era intervalado com várias paragens para admirar a paisagem, fazer visitas culturais ou simplesmente descansar provando um figo seco acompanhado do melhor néctar do Douro. Assim foi, respectivamente, no alto da Capela de S. Gabriel, no núcleo de gravuras de Penascosa e na Quinta da Erva Moira.

Um retemperador almoço servido no restaurante o Bruiço em Foz Côa deu novo alento para os trilhos da tarde que serpentearam ao longo do Rio Douro até às ruínas romanas do Prazo e depois até Numão onde alguma emoção acompanhou o trilho de descida do Castelo.
Ao jantar o grupo de fados da Guarda animou a noite onde foram alguns os magistrados que mostraram estar tão à vontade a cantar o fado como a proferir sentenças.

Finalmente a manhã de Domingo foi de “peregrinação” a Sernancelhe e aos seus variados e espectaculares santuários com destaque para o de N. Sra. da Lapa onde nos claustros do convento decorreu o almoço de encerramento. Antes, o Presidente da Câmara, Dr. José Mário, recebeu a comitiva no centro cultural onde se assistiu a um filme sobre o concelho tendo igualmente tido lugar uma visita guiada ao centro histórico.

Para António Martins, Presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses “conseguimos reunir um conjunto de pessoas que, no dia a dia dos Tribunais se encontram noutro tipo de tarefas e funções. Foi muito agradável encontrarmo-nos de forma diferente num passeio muito bem organizado pelo Clube Escape Livre.”.


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SAÍDA PRECÁRIA

No soturno gabinete do juiz, o arguido entrou, receoso, procurando vislumbrar, no olhar do magistrado, a sorte que lhe estava destinada.
Afadigado em papeis, com um rosto tenso da concentração que lhe era exigida, o juiz quase não pareceu notar no arguido e só o pigarrear do funcionário o fez levantar os olhos e encarar com o indivíduo, alto, mais gordo que magro, que o mirava, assustado, com os olhos castanhos, frenéticos, a bailarem entre as pálpebras.
- O que se passa – inquiriu o magistrado, volvendo o olhar para os seus papéis ?
- É aquela situação da violação da precária, Srº Drº, o arguido …
- Ah, sim senhor, já sei do que se trata, então pode entrar e sentar aí nessa cadeira.
O arguido entrou e sentou-se, de forma suave e silenciosa, na cadeira que o juiz lhe tinha indicado com um breve movimento do braço.
Com ele entraram também o funcionário e o guarda prisional.
Durante alguns segundos ninguém disse nada, enquanto o juiz acabou de escrevinhar qualquer coisa, atirou com os papéis para o lado e pegou noutro processo.
- Ora, vamos cá ver … é o Srº Tomás Santos, não é assim ?
- Sim, Srº Drº.
- Muito bem … como sabe, o Srº violou uma saída precária .. teria que voltar ao EP no dia 03/10, sexta-feira e só voltou …
- No dia 06/10, segunda-feira.
- Isso mesmo – conclui o juiz – tem alguma justificação para este atraso?
O arguido nada disse, mas olhava, com ar de dúvida, para o juiz.
- Então, não tem nenhuma justificação para o seu comportamento?
Novo silêncio, ainda que se notasse, no castanho daqueles olhos, uma leve hesitação, uma sombra de dúvida.
- Ó homem, não tenha medo, diga lá o que se passou – estimulou o magistrado, que também tinha reparado naquela indecisão.
O arguido suspirou fundo e ainda com a voz encovada, perguntou :
- Posso mesmo dizer a verdade, Srº Drº ?
- Claro – respondeu o juiz.
- Tenho medo que V. Exª não me acredite, que julgue que estou a gozar.
- Nada disso, eu já vi muita coisa, já tenho muitos anos disto e a verdade nunca prejudicou ninguém, avance sem medos.
O arguido olhou-o nos olhos e tomado de uma resolução interior, com uma voz mais segura e determinada, disse :
- Então cá vai e seja o que Deus quiser. Saiba V. Exª, Srº Drº Juiz, que eu não me apresentei no EP por nesse fim-de-semana ter ido fazer um passeio de todo o terreno.
Houve um silêncio, fundo, em que se ouviu o leve zumbido de uma mosca que voltejava pelo gabinete, enquanto o juiz olhava o arguido quase sem o ver.
- Um passeio de todo o terreno ? !!
- Exactamente.
- Mas como assim …
- Um amigo meu, que é muito dado a estas coisas dos jipes falou-me no passeio, começou a descrever-me o que ia ver, eu não resisti e como eram só três dias, olhe, acabei por ir …
O tom desarmante da voz e a sinceridade que parecia transparecer daquele olhar, fizeram o juiz hesitar, entre o raspanete que se exigia e a gargalhada que lhe apetecia.
Mas os segundos passaram e ele não foi capaz de qualquer reacção.
O arguido leu essa indecisão como um convite ao desenvolvimento da história e animado, avançou :
- Foi um passeio fantástico, Srº Drº, todo pela região da Guarda, ali, à beirinha da Serra da Estrela.
- Bem … aquela é uma bela região, de facto…
- Se é, Srº Drº, aquilo começou tudo em Trancoso, que é uma pequena terra com um centro histórico muito bonito e onde o Rei D. Dinis casou com a Rainha D. Isabel.
- E é a terra no nosso trovador, o Bandarra.
- Pois é, Srº Drº, até tem lá uma estátua, mas houve muito mais, pois vi as gravuras paleolíticas do Parque Arqueológico do Vale do Côa, a Capela de S. Gabriel …
O arguido falava entusiasmado e o juiz, por momentos esquecido da sua condição, ouvia-o atento, sem notar no ar espantado do guarda prisional.
- O tempo esteve fantástico, passamos por uma quinta fabulosa, a Quinta da Erva Moira onde comemos figos secos acompanhados de um Porto, as vistas eram assombrosas, estivemos nas ruínas romanas de Prazo, no castelo de Numão … em que aí, Srº Drº … o trilho para descer do castelo … era qualquer coisa de emocionante !
- Pois sim, pois sim, mas o Srº sabe que isso não é justificação para …
- Eu sei Srº Drº Juiz, eu sei isso muito bem, mas se V. Exª tivesse lá estado iria compreender melhor. È que tudo correu às mil maravilhas, tudo muito bem organizado, com tempo para tudo, para vermos as vistas, aprendermos coisas novas, comer, beber e divertirmo-nos na condução. E não falhou nada, sempre por trilhos diferentes, a almoçar em restaurantes óptimos, a atravessar o rio, a termos uma perspectiva dos montes e dos vales que mais ninguém tem, a vermos santuários atrás de santuários, cada um mais espectacular que o anterior, até acabar em Sernancelhe e com o almoço nos claustros do convento de N.S da Lapa.
- E que organizou isso tudo ?
- O Clube Escape Livre, é um clube da região da Guarda que organiza estas coisas há mais de 20 anos.
- Ah sim, esse nome não me é nada estranho … espere lá …
O juiz parou de falar de repente, como se tivesse sido acometido por uma visão interior e o arguido também se calou, fitando-o interrogativamente, ainda que no fundo do seus olhos se pudesse perceber que adivinhava o que iria suceder.
- Não me vai dizer … não … deve estar a brincar … não me diga que esse passeio foi aquele que foi organizado para a Associação Sindical dos Juízes Portugueses ? !!!
O tom tinha sido meio brusco, meio alterado, o arguido encolheu-se um pouco e foi já com a voz algo sumida que respondeu :
- Foi sim Srº Drº, foi 2º TT organizado para os juízes, mas aberto também a outras pessoas, pois eu fui com o meu advogado, que também já tinha ido ao anterior. Ao que sei, estavam lá muitos colegas de V. Exª e todos gostaram muito
- Pois devem ter gostado … – retorquiu o juiz, que parecia meio ausente
- Foi uma pena V. Exª não ter ido …
- Ó homem … não me diga mais nada – e com um gesto cansado, fez sinal ao guarda para retirar o arguido.


-- Renato Barroso – Juiz de Direito do Tribunal da Boa Hora --


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UM DIA EM TODO O TERRENO


Soprava um vento frio de Outono quando começou o nosso baptismo de todo o terreno, no âmbito do passeio organizado pela Associação dos Juízes Portugueses e a Associação Escape Livre.

Ultrapassada a muralha de Trancoso entrámos, decididos, na cornija do monte, rompendo os trilhos da btt, entre rochas e mato rasteiro, preparados para descobrir os roteiros escondidos do Distrito da Guarda.

Enquanto o sol fazia as nuvens de pó brilharem a contra luz, o jipe ultrapassava as rugas do caminho, oscilando como um animal, exigindo contracção dos músculos e atenção permanente.

Seguindo os hieróglifos do Road-book, o passeio levou-nos a terras perdidas, com vultos negros sentados às portas, igrejas de pedra e túmulos entre as soleiras.

As horas voaram. Percorremos atalhos por entre os socalcos de vinha, conquistámos o horizonte em São Gabriel, tentámos interpretar as rochas de Foz Côa e regressámos ao passado, atravessando vilas, ruínas romanas e castelos.

A emoção é a de montar um corcel indomável, que trepida sob os nossos corpos, à medida que galgamos os montes íngremes, atravessamos o rio e serpenteamos pelas encostas.

Foi uma experiência surpreendente e claramente a repetir. O privilégio de conhecer os recantos do país profundo e as perspectivas reservadas aos pastores e às aves. Uma verdadeira escapadela em liberdade.

-- Dra. Paula Guimarães --

Local: Beira Interior
 
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